<em>Vita nuova</em>

Francisco Silva
Às vezes acontecem-me destas coisas. Ando a fugir, a fugir, de fazer algo que me parece descabido. E acabo por ir lá cair; porque por fim, o julgamento «final» me impele a fazê-lo. Pois era o caso que estava eu a evitar o título dantesco (dantesco num sentido amplo e não apenas no de «inferno dantesco») de Vita Nuova para não estar a cair no que pressinto ser uma eruditisse. Além disso, o tema que tenho em mente para o texto encabeça pelo título Vita Nuova - o tema da nova vida do email, do telefone móvel, da Internet - nada tem a ver com um começar como o proporcionado pela inicial visão da Beatriz pelo protagonista da mesma obra.
E mais, no caso do protagonista da Vita Nuova, tinha ele 9 anos, quando viu Beatriz - ou qual fosse o nome dela - pela primeira vez, pôs-se o seu espírito vital a latir com tanta força que o sentia pelo pulsar do coração e disse: «Eis um deus mais forte do que eu que vem para me dominar» - escreve Dante(1). Neste caso, nem parece que a transição para o novo envolvimento em meios de comunicação leve o espírito a latir, nem a mudança acontece no repente da primeira visão, pois, sendo rápida, vai levando o seu tempo. Nem os novos meios de comunicação são, com certeza, «um deus mais forte do que nós que vem para nos dominar».
Mas é seguramente uma Vida Nova que se vai insinuando (incipit vita nova, é a expressão latina empregue por Dante), no sentido em que a forma de comunicar se alterou e continua a alterar de forma muito profunda. E tudo a acontecer num prazo historicamente curto. Já não iria ao Graham Bell, ao Morse ou ao Marconi para observar o seu espanto antropológico se aí voltassem. Bastaria - cada um no seu círculo, eu, claro, no meu - ver a reacção dos profissionais mais avançados - no sentido de up to date e de práticos da inovação - das correspondentes áreas de trabalho, desaparecidos há não mais de duas décadas, se retornados a esta nossa Terra!
Conhecido: o efeito do telemóvel na nossa vida de todos os dias tornou-se num fenómeno tão normal, tão corriqueiro, que, adquirido, já quase ninguém vai dando por ele - é a mobilidade, o estar acessível (podendo-se e querendo-se) em qualquer sítio ou a qualquer hora; o efeito do computador e a comunicação interpessoal - e-mail, chat - que permite empregar a escrita em tempo (quase) é outro fenómeno normal e corriqueiro para um número crescente de pessoas, contudo muito menos que as utilizadoras rotineiras do telemóvel; e ainda mais recentemente, e menos acessível, a mobilidade nas comunicações via computador.
Estas últimas, em particular, estão na base de uma mutação nas formas de interagir e trabalhar dos grupos e organismos. E já não estou a referir-me apenas ao trabalho à distância, isto longe da vista e longe do ouvido. Pois. Chegados à reunião, em vez dos papéis, dos dossiers e das esferográficas em cima dos tampos das secretárias são os computadores de cada um que aí são instalados e o cabo de alimentação que é ligado em tomadas existentes na proximidade (atenção que por vezes as tomadas obedecem a normas diferentes e não te podes esquecer dos adaptadores ou então, chegado, compras ou pedes uma no hotel).
Começada a reunião, falada é claro, como sempre foram as reuniões, desenrola-se, portanto segundo as regras usuais, encontrando-se os documentos nos computadores. Estes além de terem sido ligados à corrente - lembra-se o leitor? -, pelo menos logo que as baterias tenham perdido o seu mágico efeito, são também ligados à Internet por cabo ou via rádio (neste caso, nós já levamos a placa adequada), pois os novos documentos vão chegando e assim não será preciso copiá-los, nem gastar papel, nem ter ninguém a distribui-los, nem ter que transportá-los para casa - eles estão sempre disponíveis no site.
Entretanto, enquanto a reunião decorre, pode ser estabelecido - é-o, na realidade, em certos casos - em paralelo, um sistema - «sala» - de chat para a conversa, ao qual podem aceder os membros do respectivo organismo, e também outros que concorram para a sua actividade. E a conversa fluí por escrito. Surgem os comentários curtos, por vezes maliciosos, outros de fraco nível e interesse duvidoso - são normalmente os desabafos. São assim as conversas e são assim também as conversas escritas! O certo é que ajudam ao decorrer da reunião «normal», vista e falada, e quantas vezes com achegas preciosas, sem perturbar o fio «normal» do debate.

Para mim, isto são coisas de Vida Nova, à qual me vou adaptando. E já nem me importo de as «confessar» para uma audiência alargada… mesmo que me julguem um «deslumbrado». Paciência.

(1) Alighieri Dante, Vida Nova. Lisboa: Guimarães Editores, Lda.


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